O Mandamento esquecido

O Mandamento esquecido

O Mandamento Esquecido

"Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim"
"Tende em vós os mesmos sentimentos da Jesus Cristo"... "Ele, que é de condição divina",
igual a Deus por natureza uma vez que partilha do Seu poder, a Sua eternidade e o Seu
próprio ser..., cumpriu o ofício de servo "humilhando-se e fazendo-se obediente ao Pai até à
morte, e morte de cruz" (Fil 2,5-8). Poder-se-ia considerar de somenos que, sendo Seu Filho e
Seu igual, ele tenha servido o Pai como um servo; melhor, serviu o Seu próprio servo mais do
que qualquer outro servo. Porque o homem tinha sido criado para servir o seu criador; que
haverá de mais justo para ti do que servir aquele que te criou, sem o qual tu nem existirias? E
que haverá de mais feliz do que servi-lo, uma vez que servi-lo é reinar? Mas o homem disse
ao seu Criador: "Não servirei" (Jr 2,20).
"Pois bem, servir-te-ei eu!" diz o Criador ao homem. "Senta-te à mesa; farei eu o serviço;
lavar-te-ei os pés. Descansa; tomarei os teus males sobre os meus ombros; carregarei todas as
tuas fraquezas... Se estiveres fatigado ou carregado, levar-te-ei, a ti a à tua carga, a fim de ser
o primeiro a cumprir a minha lei: 'Levai os fardos uns dos outros' (Gal 6,2)... Se tiveres fome
ou sede..., eis-me pronto a ser imolado para que possas comer a minha carne e beber o meu
sangue... Se te levarem para o cativeiro ou te venderem, eis-me aqui...; resgato-te dando o
preço que conseguires com a minha venda; dou-me a mim mesmo como preço... Se estiveres
doente, se receares a morte, morrerei em vez de ti para que, do meu sangue, faças remédio
para a vida..."
Oh meu Senhor, por que preço resgataste o meu serviço inútil!... Com que arte plena de amor,
de doçura e de benevolência recuperaste e submeteste este servo rebelde, triunfando do mal
pelo bem, confundindo o meu orgulho com a Tua humildade, cumulando o ingrato com os
Teus benefícios! Eis aí o triunfo da Tua sabedoria!


 
"Amou-os até ao fim"
"Antes da festa da Páscoa, sabendo que tinha chegado para si a hora de passar deste mundo
para o Pai, Jesus, tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até ao fim"... No
Evangelho, João foi chamado "o discípulo que Jesus amava". É esse discípulo que nos mostra
aqui, pelas suas palavras, a que ponto o nosso Salvador, que o amava realmente, era fiel no
seu amor.
Porque estas palavras são seguidas imediatamente pela narrativa da dolorosa Paixão de Cristo,
a partir da última Ceia e, primeiro que tudo, do humilde serviço do lava-pés, prestado por
Jesus aos seus discípulos, e da expulsão do traidor. Depois, vêm os ensinamentos de Jesus, a
sua oração, a prisão, a flagelação, a crucifixão e toda a dolorosa tragédia da sua amaríssima
Paixão.
É antes de tudo isto que S. João cita as palavras que recordámos há pouco, para fazer
compreender que todos estes atos Cristo realizou por puro amor. Esse amor, Ele bem o

demonstrou aos discípluos na última Ceia, quando lhes afirmou que, se se amassem uns aos
outros, seguiriam o seu exemplo. Porque àqueles que amava, amou-os até ao fim e desejava
que fizessem o mesmo. Ele não era inconstante, como tantos que amam de forma passageira,
abandonam na primeira oportunidade e, de amigos, tornam-se inimigos, como fez o traidor
Judas. Quanto a Jesus, perseverou no amor até ao fim.

Evangelho segundo S. João 13,1-15.
Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste
mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles
até ao extremo. O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho deSimão Iscariotes, a
decisão de o entregar. Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai
tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou
o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar
os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. Chegou, pois, a Simão
Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» Jesus respondeu-lhe: «O que Eu
estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.» Disse-lhe
Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!» Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar,
nada terás a haver comigo.» Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas
também as mãos e a cabeça!» Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar
senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos.» Ele bem sabia quem
o ia entregar; por isso é que lhe disse: 'Nem todos estais limpos'. Depois de lhes ter lavado os
pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos
fiz? Vós chamais-me 'o Mestre' e 'o Senhor', e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor
e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveislavar os pés uns aos outros. Na verdade, deivos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.

Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo
“Sabendo Jesus que o Pai depositara nas Suas mãos todas as coisas e que havia saído de Deus
e ia para Deus, levantou-Se da mesa.” O que não estivera outrora nas mãos de Jesus é
colocado pelo Pai nas Suas mãos: não certas coisas, à excepção de outras, mas todas as coisas.
Davi tinha dito: “Palavra do Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita enquanto
ponho os teus inimigos por escabelo dos teus pés’.” (Sl 109, 1). Com efeito, os inimigos de
Jesus faziam parte deste tudo que Ele sabia queo Pai Lhe dava. […] Por causa daqueles que
se tinham afastado de Deus, Ele afastou-Se deDeus, Ele que, por natureza, não quer sair do
Pai. Ele saiu de Deus a fim de que tudo quanto se afastou de Deus regresse com Ele às Suas
mãos, para junto de Deus, segundo o Seu desígnio eterno. […]
O que fazia, pois, Jesus, lavando os pés dos discípulos? Lavando-lhos e enxugando-lhos com
a toalha que tinha posto à cintura, Jesus embelezava-lhes os pés para o momento em que eles
teriam de anunciar a boa nova. Foi então quese cumpriu, segundo me parece, a palavra
profética: “Que formosos são os pés do mensageiro que traz a boa nova!” (Is 52, 7; Rom 10,
15). Mas se, ao lavar os pés aos discípulos, Jesus os embeleza, como exprimir a verdadeira
beleza daqueles que Ele mergulha por completono “fogo do Espírito Santo” (Mt 3, 11)? Os
pés dos apóstolos tornaram-se belos a fim […] deque eles pudessem avançar pela via santa,
caminhando naquele que disse “Eu sou o Caminho”(Jo, 14, 6). Porque só aquele a quem
Jesus lavou os pés segue este caminho vivo que conduz ao Pai; caminho onde não há lugar
para pés manchados. […] Para seguir este caminho vivo e espiritual (Heb 10, 20) […], há que
ter os pés lavados por Jesus, que Se despiu das Suas vestes […] a fim de tomar no Seu próprio
corpo a impureza dos seus pés, com essa toalhaque era a Sua única veste, pois “ele tomou
sobre si as nossas doenças” (Is 53, 4).

 

São João inicia seu relato sobre como Jesus lavou os pés de seus discípulos com uma
linguagem particularmente solene, quase litúrgica.«Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo
que havia chegado sua hora de passar deste mundo ao Pai, depois de ter amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até o fim» (13, 1). É chegada a «hora» de Jesus, junto à qual seu
agir era dirigido desde o início. O que constitui o conteúdo desta hora, João o descreve com
duas palavras: passagem (metabainein, metabasis) e agape–amor. As duas palavras ilustram
o evento; ambas descrevem a Páscoa de Jesus: cruz e ressurreição, crucifixão como elevação,
como «passagem» à glória de Deus, como um «passar» do mundo ao Pai. Não é como se
Jesus, depois de uma breve visita ao mundo, agora simplesmente partisse e retornasse ao Pai.
A passagem é uma transformação. Ele leva consigo sua carne, o seu ser homem. Sobre a
Cruz, na doação de si mesmo. Ele é como que fundido e transformado em um novo modo de
ser, no qual agora está sempre com o Pai e contemporaneamente com os homens. Transforma
a Cruz, o ato da execução, em um ato de doação, de amor até o fim. Com esta expressão, «até
o fim», João refere-se em antecipação à última palavra de Jesus sobre a Cruz: tudo foi levado
a término, «está consumado» (19, 30). Mediante seu amor, a Cruz torna-se metabasis,
transformação do ser humano no ser partícipe da glória de Deus. Nesta transformação, Ele
envolve todos nós, atraindo-nos dentro da força transformadora de seu amor, a ponto de, em
nosso ser com Ele, nossa vida se torna «passagem», transformação. Assim, recebemos a
redenção – o ser partícipes do amor eterno, uma condição à qual tendemos com toda a nossa
existência.
Este processo essencial da hora de Jesus é representado no lava-pés em uma espécie de
profético ato simbólico. Nele, Jesus evidencia com um gesto concreto justamente isso que o
grande hino cristológico da Carta aos Filipenses descreve como o conteúdo do mistério de
Cristo. Jesus depõe as vestes de sua glória, cinge-se com o «pano» da humanidade e se faz
escravo. Lava os pés sujos dos discípulos e os faz, assim, capazes de participar do convívio
divino ao qual Ele os convida. Ao lado das purificações cultuais e externas, que purificam o
homem ritualmente, deixando, contudo, assim como é, subentende-se o banho novo: Ele nos
torna puros mediante sua palavra e seu amor, mediante o dom de si mesmo. «Vós já estais
limpos pela palavra que vos anunciei», dirá aos discípulos no discurso sobre a videira (Jo 15,
3). Sempre de novo nos lava com sua palavra. Sim, se acolhemos as palavras de Jesus em
atitude de meditação, de oração e de fé, elas desenvolvem em nós sua força purificadora. Dia
a dia somos como que recobertos de sujeira multiforme, de palavras vazias, de preconceitos,
de sabedoria reduzida e alterada; uma múltipla semi-falsidade ou a falsidade aberta se infiltra.

 

O leitor pode estar se perguntando? Onde se encontra o Mandamento esquecido?

 

Gostaria que refletissem no ato literal de Cristo, curvando-se e lavando os pés aos discípulos. É-nos comum, ou cômodo pensar que Cristo estava dando mostra de humildade, amor incondicional mas, o que dizer destas palavras: Na verdade, deivos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. "Depois que lhes lavou os pés, e tomou os vestidos e se assentou outra vez à mesa disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu fiz, façais vós também. (13:12-15).

 

SE PREFERIR PERGUNTE CLICANDO AQUI